10 Julho 2008

Novo espaço para a música da Paraíba

Boa notícia para os músicos paraibanos. O Sindifisco-PB promove, a partir deste mês, o projeto Som do Fisco. A temporada, que vai até novembro, será aberta nesta sexta-feira (11), às 21h, no Teatro Armando Monteiro Neto, com os shows de Adeildo Vieira e Gláucia Lima. A entrada é gratuita, mas o público deve chegar às 20h, quando serão distribuídas às 150 senhas.

Adeildo Vieira nasceu em Itabaiana e começou a carreira em 1984, desenvolvendo projetos no Musiclube da Paraíba, por onde passaram artistas como Pedro Osmar, Chico César, Milton Dornellas, Paulo Ró, Escurinho. Lançou o CD Diário de Bordo (2000) e lançou o DVD Chega Junto, no ano passado, que tem a participação de vários artistas convidados e traz composições inéditas e outras conhecidas do público.

Gláucia Lima nasceu em João Pessoa e começou a cantar profissionalmente em 1997. A cantora integrou o grupo Mama Jazz e tem um trabalho marcado pela influência musical do samba, baião, ciranda e maracatu. Em 2005 ela lançou os discos Zanzar e Tanto Mistério, gravados com recursos do FIC Augusto dos Anos e com direção musical de Adeildo Vieira e Jorge Negão.

Com um show por mês, sempre às sextas-feiras, o projeto Som do Fisco terá ainda apresentações dos grupos Quinteto da Paraíba (08 de agosto), Clã Brasil (05 de setembro), JPSax (10 de outubro) e do cantor Beto Brito (07 de novembro), que encerra a temporada.
O teatro Armando Monteiro Neto fica na Rua Rodrigues Chaves, 90, Centro.

31 Maio 2008

Anne Frank além do diário

Desde o começo foi mostrado aos reclusos que a vida em Auschwitz era incomparavelmente mais difícil do que a morte”.
(Melissa Müller)

Publicado pela primeira vez em 1947, dois anos após o fim da 2ª Guerra Mundial, O diário de Anne Frank comoveu muita gente e, pode-se assim dizer, tornou-se um dos mais famosos e impressionantes documentos sobre o holocausto. A adolescente legou às gerações futuras seu testemunho sobre os tempos de intolerância na Europa dominada pelos nazistas.

No seu diário, a garota judia relata a convivência nem sempre amistosa de oito pessoas confinadas por mais de dois anos num sótão escuro e úmido de Amsterdã. O livro é o relato impressionante sobre o sentimento da adolescente – e que pode ser traduzido no sentimento coletivo do povo judeu –, que estendia sua dor aos demais perseguidos por Adolf Hitler e seus seguidores.

A jornalista austríaca Melissa Müller leu O diário de Anne Frank aos 13 anos e se apaixonou pela história. E sentiu falta de informações sobre a vida dos Frank antes do Nazismo e do confinamento na capital holandesa e sobre os fiéis amigos que lhes ajudaram. Assim nasceu Anne Frank – uma biografia (Record, 400 páginas), que registra desde o nascimento da menina até seus últimos dias em Bergen-Belsen.

O livro começa pelo dia em que os Frank (Otto, Edith, Margot e Anne), os Van Pels (Herman, Auguste e Peter) e Fritz Pfeffer foram presos pelos nazistas após terem sido delatados. Depois volta aos anos 1920 mostrando os acontecimentos políticos, sociais e econômicos da Alemanha, passando pela ascensão de Hitler e a gestação do movimento anti-semita no país.

Melissa Müller pesquisou em vários países e teve acesso aos documentos da época, tanto de autoridades holandesas como os despachos de Hitler e seus principais ministros, que tratavam da solução final da questão judia. A autora também conseguiu, junto ao Anne Frank Fonds, as muitas cartas escritas por Anne, e encontrou Miep Gies, secretária de Otto Frank e uma das responsáveis pela sobrevivência das famílias clandestinas.

Esse mergulho no passado deu a autora uma visão privilegiada para, com seu senso crítico apurado, registrar os primeiros sinais da intolerância dos nacional-socialistas e também retratar sua biografada de uma forma bastante honesta, sem esconder histórias nem tão agradáveis que descobriu em suas pesquisas, como a relação muitas vezes conturbada entre Anne e Edith Frank.

Anne Frank – Uma Biografia tem um posfácio escrito por Miep Gies e muitas fotos. No epílogo, a autora mostra a vida de Otto Frank – único sobrevivente da família – após a Guerra. O livro traz ainda a árvore genealógica dos Frank (família de Otto) e dos Holander (família da Edith), com um quadro cronológico que vai de julho de 1869 a agosto de 1945 e uma relação de todas as fontes consultadas, organizada conforme os capítulos.

EM TEMPO: Anne Frank gostava de escrever e, no período em que estava na clandestinidade, produziu bastante. São fábulas, contos, ensaios e pelo menos uma novela, que ficou inacabada. Esses textos foram organizados por Otto Frank, seu pai, e publicados no livro Contos do Esconderijo, em 1949. No Brasil, os dois livros de Anne Frank foram publicados editora Record.

04 Março 2008

Duas ruas, mil charges

Em 1987, o cidadão Régis Soares decidiu fazer um protesto para chamar a atenção das autoridades que cuidavam da cidade. Havia, na rua onde trabalhava, um buraco grande que prejudicava a todos que passavam por lá. Ele não fez passeata nem greve de fome. Colocou um painel com uma charge na esquina das ruas Etelvina Macedo de Mendonça com a Barão da Passagem, onde até hoje funciona seu ateliê.
Não poderia ter feito protesto melhor. A charge fez sucesso de imediato, agradando aos vizinhos e outras pessoas que passavam pelo local. Mas não sensibilizou a quem deveria, as autoridades, e o buraco permaneceu aberto por quatro anos. Vinte e um anos e mil charges depois, seus trabalhos fazem parte do cotidiano da cidade e são referência no bairro da Torre.
Régis Soares se tornou, ao longo desse tempo, uma espécie de cronista que retrata o cotidiano do Brasil através das charges, abordando fatos da política, do futebol, televisão e outros assuntos que repercutem no país e no estado. Pelos seus painéis passaram os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e agora o presidente Lula, além dos políticos do estado.
Segundo o chargista, a população respeita seu trabalho. Ele nunca teve um trabalho pichado. Mas já enfrentou problemas com pessoas que não gostaram das críticas que fez. Logo quando começou a fazer as charges, um secretário que passava pelo local destruiu um painel porque não gostou da charge. E voltou a enfrentar o mesmo problema em 2006, quando destruíram uma charge que criticava o presidente Lula.
Engana-se quem pensa que Isso o intimidou. Até porque ele sempre fez críticas aos políticos de todas as tendências e de todos os partidos, afinal, a política ainda é maior fonte de inspiração para os humoristas brasileiros. E como todo chargista, nada – e ninguém – está fora do alcance de seus pincéis. Nem o flamengo, time do coração, escapa às tintas do artista.
Mas como viver apenas de arte ainda é um sonho distante para a maioria dos artistas paraibanos, Régis vive de pintar faixas e cartazes. Nessas duas décadas, ele teve pouco apoio da iniciativa privada e menos ainda dos poderes públicos. Todos os livros que publicou até agora – exceto 15 anos de Charges na Rua, que teve 50% do custo patrocinado pela iniciativa privada – foram custeados pelo próprio chargista.
Paraibano de João Pessoa, Reginaldo Soares Coutinho, é chargista, cartunista e caricaturista. Começou em 1983, publicando suas charges em um jornal da capital. O trabalho chamou a atenção da academia. Primeiro inspirou o vídeo-documentário “Charges na Rua”, de Larissa Claro, Alexandre Macedo e Fábio Lopes, na época estudantes de Comunicação Social da UFPB.
Depois as charges também atraíram a atenção da professora Francineide Fernandes, do departamento de Letras da UFPB, que em sua dissertação de mestrado analisou alguns trabalhos do cartunista para mostrar como ele retrata nossas mazelas sociais. Ela estendeu sua pesquisa e vai prosseguir analisando a obra de Régis Soares no doutorado.
Régis publicou os livros Charges e Caricaturas (1993), Pintando o Sete e Desenhando os Outros (2000), Charges na Rua (2002) e 15 anos de Charges na Rua (2006), além de Álbum da Familia Baiano, uma coletânea de caricaturas das personalidades que frequentam do Bar do Baiano - ponto de encontro de poetas e jornalistas –, organizada por Ed Porto Bezerra.

15 Agosto 2007

Não é bem assim

Certa vez, assistindo ao filme A Noviça Rebelde (The Sound of Music, EUA/1965), estranhei que ela, a noviça Maria, fosse considerada rebelde. Para mim, a rebeldia sugerida no título estava deslocada. É claro que ela não se enquadrava totalmente nas regras régidas do convento, mas tratá-la como rebelde era um exagero. Talvez por isso mesmo o título original seja apenas “O Som da Música”.

Isto, mais tarde eu compreenderia, é um problema que há tempos acompanha as traduções para o português dos títulos de filmes estrangeiros. Assim vão surgindo os títulos que se pretendem engraçados e que, na verdade, mais confundem do que orientam o público. Principalmente nas comédias. Quem prestar atenção vai perceber que muitas delas buscam fazer graça já no título.

O que dizer, por exemplo, de Quase Feitos Um para o Outro. Realizado em 1997 – o título original é Zeus e Roxane –, o filme de George Miller conta a história de um cachorro (Zeus) que se apaixona por uma baleia (Roxane). Nem mais nem menos, apenas o nome dos personagens principais. Mas alguém sempre acha que deve fazer um título “engraçadinho'.

No entanto, há casos mais graves em que a idéia do filme é completamente distorcida. Pode-se dizer que muitas vezes a versão brasileira é, no mínimo, infeliz. É o caso de O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra, comédia de Ron Howard que tem Steve Martin, Rick Moranis e Jason Robards no elenco. O título orignal, Parenthood (EUA/1989), signica Paternidade. Uma palavra que resolve todo o problema.

Também com Steve Martin, Um Espírito Baixou Mim, de Carl Reiner, feito cinco anos antes, se chama, na verdade, Tudo de Mim (All of Me). Novamente Carl Reiner e Steve Martin, O Médico Erótico (The Man With Two Brains/ EUA/1983), um titúlo apelativo para O Homem Com Dois Cérebros, conforme o título original. A história mostra um médico casado (Steve Martin) que se apaixona por um cérebro.

O exagero talvez tenha surgido pelo sucesso de Corpos Ardentes (Body Heat/EUA/1981), de Lawrence Kasdan, no qual Kathleen Turner – que em O Médico Erótico vive a mulher de Steve Martin – interpreta uma mulher sedutora em uma história sensual. Só isso pode explicar – ainda que justifique – um título tão apelativo e tão distante do que o filme se propõe.

É claro que não defendo que todos os filmes, de todas as nacionalidades, tenham sempre títulos traduzidos literalmente. Mas que os responsáveis usem um pouco mais a criatividade ao verter os títulos originais para o português. O problema existe há muito tempo, mas também existem bons exemplos em que os tradutores acertaram na versão, deixando o título, pelo menos para nós brasileiros, mais atraente.

Um deles é À Espera de Um Milagre (The Green Mile/EUA/1999), de Frank Darabont. Para quem não lembra, o filme conta a história de uma homem inocente condenado à morte na cadeira elétrica, cujos últimos passos no “corredor da morte” são no piso verde ao qual se refere o título original. Para nós que pouco sabemos da “milha”, com certeza o título não teria o mesmo impacto.

Vale destacar também que o público, assim como os guardas do corredor da morte, torcem pelo milagre que salvará John Coffey, personagem de Michael Clarke Duncan, da execução na cadeira elétrica. Para terminar, outro filme de Darabont, Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption), também recebeu uma tradução compatível com a história contada na tela.

25 Julho 2007

Para conhecer Shakespeare e outros autores

A internet é mundo de possibilidades e todo mundo sabe disso. Mas quantas pessoas, mesmo aquelas que navegam diariamente na rede mundial, conhecem o Domínio Público? Pois bem, o portal mantido pelo Ministério da Educação (MEC) disponibiliza diversas obras das mais variadas áreas do conhecimento – e em mais de dez idiomas – que podem ser consultadas 24 horas por dia, sete dias por semana.
O melhor é que o visitante entra sem pagar nada e pode acessar as mais de vinte mil obras cadastradas, sejam imagens (vídeo, fotografia, gravuras, pinturas), textos e arquivos sonoros. O acervo dispõe de obras de Shakespeare, Fernando Pessoa, Dante Alighieri, Machado de Assis, Karl Marx, Platão, Oscar Wilde, Allan Kardec, Karl Marx, Albert Einstein e vários outros autores.
De acordo com o número de downloads encontrado no próprio site, A Divina Comédia, de Dante Alighieri teve mais de cem mil acessos. Este número mostra que a internet também pode ser usada para incentivar a leitura. Entre as dez obras mais consultadas podemos encontrar A Comédia dos Erros, de Shakespeare, e Dom Casmurro, de Machado de Assis.
No ano passado, o Domínio Público recebeu a visita de mais de 460 mil pessoas – contando apenas um usuário por computador –, sendo mais de 53 mil no mês de maio, que registrou o maior número de visitas, e pouco mais de 24 mil em dezembro, quando os internautas procuraram menos o site. A média de acessos mensais também pode ser encontrada no portal, na seção “estatísticas”.
Ainda assim, circulou pela internet um boato informando que o portal estaria fechando por falta de acessos. Esses números desmentem essa informação. O número de acessos pode até variar de acordo com o mês, mas não há como negar que a importância do Domínio Público está sendo reconhecida. Isto sim, é um fato inegável. As estatísticas comprovam que os internautas estão descobrindo o portal.
Lançado em 2004 com um acervo inicial de 500 obras, o portal trabalha com obras que já são de domínio público e por isso não implicam mais no recolhimento de direitos autorais. Também trabalha com obras cuja publicação é autorizada pelos respectivos autores (via de regra, pela licença Creative Commons para publicação na internet) e com publicações de órgãos públicos, como o próprio MEC.
Um dos maiores nomes da literatura brasileira e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), Machado de Assis é um dos autores com grande número de obras no acervo do Domínio Público. Livros como Contos Fluminenses (1870), A Mão e a Luva (1874), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), entre outras do autor, podem ser encontrada no site.
E qualquer pessoa pode colaborar com o portal. Quem quiser fazê-lo pode ser voluntário (digitalizando obras que já se encontram em domínio público), autor (cedendo obras de sua autoria, se você é escritor, músico, fotógrafo, ilustrador, cineasta etc), tradutor (traduzindo obras que já se encontram em domínio público) ou parceiro (cedendo os direitos autoriais de obras que a sua organização – pessoa jurídica – detenha).
É claro que o endereço do portal ficou para fim propositadamente. Basta acessar www.dominiopublico.gov.br e ser feliz com as informações que por lá encontrar.

16 Abril 2007

Duas vezes com Helena - Um jogo de sedução

Bons filmes nem sempre são exibidos no circuito comercial de João Pessoa. Mas podem ser vistos em DVD. É o caso de Duas Vezes Com Helena (2001), de Mauro Farias. Com roteiro de Melanie Dimantas, baseado em conto de Paulo Emílio Salles Gomes, o filme narra, de forma sutil, um plano meticulosamente planejado e que tinha tudo para ser perfeito. O acaso fez com que a trama fosse descoberta.

Resumindo, Duas Vezes Com Helena conta a história da amizade de Polydoro (Fábio Assumção) com o professor Alberto (Carlos Gregório), seu mentor. Na verdade, entre os dois se estabelece uma relação de cumplicidade e confiança absoluta. Nenhum ousaria duvidar da lealdade do outro. Até porque sem essa confiança cega a história não teria sentido.

Polydoro passa um temporada na Europa e quando retorna encontra o professor casado. Mas não conhece, de imediato, a esposa do amigo. Alberto, que ainda não tem filho – pelo menos nós ainda não fomos informados disso –, age como um pai zeloso e, achamdo que o discípulo está abatido, pede que ele faça alguns exames. Até aí tudo bem, mas isto é imprescindível para tudo o que será revelado mais adiante.

O filme tem, no início, um ritmo lento, que parece não evoluir. Mas essa calmaria é proposital e vai nos induzindo a pensar outras coisas para um possível desfecho, embora deixe uma sensação de que há algo de errado no ar, algo que de uma hora para outra vai surgir para quebrar as boas relações entre mestre e discípulo. Mas o diretor, em nenhum momento, abre mão da sutileza.

Alberto convida Polydoro para passar uns dias em uma casa no interior. Metódico, o professor consulta uma agenda e marca o dia exato para a visita do ex-aluno. Recebido por Helena (Christine Fernandes) – ela ainda não havia aparecido fisicamente no filme –, que comunica a ausência do marido, nem de longe Polydoro suspeita que ausência do amigo faz parte de um plano.

É nesse ambiente que se dá a traição, ou melhor, o jogo de sedução habilmente conduzido por Helena, que prepara os pratos preferidos do convidado, tem sempre à mão as bebidas que mais o agradam, e, embora não olhe Polydoro nos olhos, lança sorrisos que o encantam. É ela também quem toma a iniciativa do beijo, quando já sabe que ele não esboçaria qualquer reação contrária.

Aliás, jogo é uma palavra chave para entendermos Duas Vezes com Helena. O diretor Mauro Farias propõe ao público um jogo que, montado aos poucos como um quebra-cabeça, precisa ser desmontado cuidadosamente para que se chegue à solução ou ao resultado que justifique o próprio filme. No entanto, ele dá pistas que, se seguidas pelo espectador, não apontarão para a verdade.

Segundo longa-metragem de Mauro Farias, que havia realizado a comédia Não Quero Falar Sobre Isso Agora (1989), premiado no Festival de Gramado, Duas Vezes Com Helena, não é filme um de paixões avassaladoras, suspenses de tirar o fôlego ou coisas do gênero. Ao contrário disso, o cineasta conseguiu imprimir o ritmo e o tempo certos para a trama. Pode não ser um grande filme, mas precisa ser visto.

01 Janeiro 2007

Pela simplicidade

O que pode fazer uma pessoa que gosta de coisas simples para viver bem em um mundo cada vez mais complexo e, conseqüentemente, mais difícil? A pergunta, na verdade, não precisa de respostas. É apenas um desabafo contra a quantidade de coisas nem sempre úteis que infestam nossas vidas, seja em casa ou no trabalho, e que, de fato, não melhoram nossa vida nem nosso desempenho profissional.
Nada tenho contra as novas tecnologias. Reconheço a utilidade dos computadores, com os quais tenho convivido muito bem. Não acredito que viveria melhor sem eles. Assim como sei que o DVD é melhor do que o videocassete. Mas não concordo que temos a necessidade de adquirir novos produtos só porque o modelo novo é um pouco mais avançado que o anterior, que ainda me serve. Embora os vendedores insistam que eu precise de tudo isso e muito mais.
Dias desses entrei em uma loja procurando um pendrive, dispositivo de informática para armazenamento de dados, e encontrei vários modelos. Uns com MP3, outros com MP4, outros com gravador de voz. Eu queria um modelo simples, que fosse apenas pendrive. Não tinha. Procurei em outras lojas e novamente me ofereceram o produto com várias utilidades.
A vendedora disse que talvez eu encontrasse em uma loja de informática. Nas duas primeiras, a exemplo dos estabelecimentos anteriores, me mostraram modelos avançados, que tinham recursos para facilitar o meu trabalho. Educadamente expliquei que não precisava de um MP3 ou qualquer coisa semelhante nas minhas atividades profissionais. Mas de um simples pendrive.
E os celulares? Ao entrar numa loja para comprar um telefone celular, cujo objetivo deve ser falar e ouvir, com no máximo uma boa agenda, fui apresentado a diversos aparelhos com rádio FM, câmeras fotográficas com tantos megapixels de resolução e cabo de dados incluso, MP3 ou MP4, acesso a internet e um programa para checar os e-mails.
Eu quero apenas um celular para falar, que pode ser um modelo não tão avançado. Aí a vendedora me disse que o novo modelo da marca tal vem com uma capa em couro, um fone de ouvido, 150 níveis de volume, discagem inteligente por comando de voz, um chip com sistema de bloqueio que permite apenas chamadas feitas pelo dono do aparelho.
E não adiantava explicar que não queria aparelho com câmera fotográfica digital porque não gosto de fotografar e muito menos de ser fotografado. Depois de insitência de um lado e resistência do outro, eles mostram, enfim, os modelos mais simples. Aqueles aparelhos que apenas ligam e recebem ligações, que tem uma agenda mínima, mas que servem para meus propósitos.
É claro que devemos entender os vendedores, que estão apenas fazendo sua parte ao oferecer os produtos mais modernos e mais caros. É claro que esses modelos servem para muitas pessoas. É claro que a evolução tecnológica é muito bem vinda e que a indústria deve continuar investindo na criação de novos produtos. E é claro que temos o direito de gostar de coisas simples.