
Certa vez, assistindo ao filme
A Noviça Rebelde (The Sound of Music, EUA/1965), estranhei que ela, a noviça Maria, fosse considerada rebelde. Para mim, a rebeldia sugerida no título estava deslocada. É claro que ela não se enquadrava totalmente nas regras régidas do convento, mas tratá-la como rebelde era um exagero. Talvez por isso mesmo o título original seja apenas “O Som da Música”.
Isto, mais tarde eu compreenderia, é um problema que há tempos acompanha as traduções para o português dos títulos de filmes estrangeiros. Assim vão surgindo os títulos que se pretendem engraçados e que, na verdade, mais confundem do que orientam o público. Principalmente nas comédias. Quem prestar atenção vai perceber que muitas delas buscam fazer graça já no título.
O que dizer, por exemplo, de Quase Feitos Um para o Outro. Realizado em 1997 – o título original é Zeus e Roxane –, o filme de George Miller conta a história de um cachorro (Zeus) que se apaixona por uma baleia (Roxane). Nem mais nem menos, apenas o nome dos personagens principais. Mas alguém sempre acha que deve fazer um título “engraçadinho'.
No entanto, há casos mais graves em que a idéia do filme é completamente distorcida. Pode-se dizer que muitas vezes a versão brasileira é, no mínimo, infeliz. É o caso de O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra, comédia de Ron Howard que tem Steve Martin, Rick Moranis e Jason Robards no elenco. O título orignal, Parenthood (EUA/1989), signica Paternidade. Uma palavra que resolve todo o problema.
Também com Steve Martin, Um Espírito Baixou Mim, de Carl Reiner, feito cinco anos antes, se chama, na verdade, Tudo de Mim (All of Me). Novamente Carl Reiner e Steve Martin, O Médico Erótico (The Man With Two Brains/ EUA/1983), um titúlo apelativo para O Homem Com Dois Cérebros, conforme o título original. A história mostra um médico casado (Steve Martin) que se apaixona por um cérebro.
O exagero talvez tenha surgido pelo sucesso de Corpos Ardentes (Body Heat/EUA/1981), de Lawrence Kasdan, no qual Kathleen Turner – que em O Médico Erótico vive a mulher de Steve Martin – interpreta uma mulher sedutora em uma história sensual. Só isso pode explicar – ainda que justifique – um título tão apelativo e tão distante do que o filme se propõe.
É claro que não defendo que todos os filmes, de todas as nacionalidades, tenham sempre títulos traduzidos literalmente. Mas que os responsáveis usem um pouco mais a criatividade ao verter os títulos originais para o português. O problema existe há muito tempo, mas também existem bons exemplos em que os tradutores acertaram na versão, deixando o título, pelo menos para nós brasileiros, mais atraente.
Um deles é À Espera de Um Milagre (The Green Mile/EUA/1999), de Frank Darabont. Para quem não lembra, o filme conta a história de uma homem inocente condenado à morte na cadeira elétrica, cujos últimos passos no “corredor da morte” são no piso verde ao qual se refere o título original. Para nós que pouco sabemos da “milha”, com certeza o título não teria o mesmo impacto.
Vale destacar também que o público, assim como os guardas do corredor da morte, torcem pelo milagre que salvará John Coffey, personagem de Michael Clarke Duncan, da execução na cadeira elétrica. Para terminar, outro filme de Darabont, Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption), também recebeu uma tradução compatível com a história contada na tela.